Desafios da UICN para a Conservação no Brasil

05 July 2013 | News story
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Luiz Merico Coordenador nacional da UICN no Brasil desde 2010. Com uma trajetoria de 12 anos anos em gestão ambiental pública, desde o nível municipal até a agência nacional de meio ambiente - IBAMA e o Ministério de Meio Ambiente do Brasil Geólogo - UFPr – Curitiba, Mestre em Análise Ambiental - UNESP- Rio Claro, Doutor en Geografia - USP - São Paulo, Aperfeiçoamento em Economia Ecológica - Schumacher College – UK. Também Professor em diversas Universidades do Sul do Brasil na área de Políticas Públicas Ambientais, Professor Convidado na Universidad de Valladolid – España, Consultor Internacional das Nacões Unidas com trabalhos para a Cepal – Santiago. Inúmeras publicações científicas e livors, dentre eles “Introdução à Economia Ecológica” e “Economia e Sustentabilidade: o que é, como se faz”.  

 A reflexão ambiental se situa no contexto de uma crise global, que vai muito mais além da dimensão econômica. Trata-se de uma crise civilizatória que desafia a humanidade a viver dentro dos princípios e limites que dispõe a natureza. Inserir-se dentro dos limites da biosfera, eis o desafio do século XXI.

A transição para a sustentabilidade exige que saibamos produzir, morar, propiciar transporte, gerar emprego e renda, ter alimentos sadios, limpos e em quantidade suficiente, sem ultrapassar a capacidade de reposição e absorção dos ecossistemas.

É neste contexto histórico que tivemos a realização de uma megaconferência ambiental no Brasil no ano de 2012 - a Rio+20. Contou com maciça representação de líderes governamentais. Á primeira vista, tratava-se de criar ou fortalecer mecanismos globais de agir coletivamente neste cenário de crise. Os resultados demonstraram que a vontade coletiva é ainda bastante frágil e de que não dispomos de líderes globais capazes de inspirar povos, nações e liderar transições.

Mas uma reunião da dimensão da Rio+20 não acontece sem deixar profundas marcas na humanidade. No caso desta conferência, a ausência de definições direcionadas para um consistente processo de governança ambiental global, deixa um vazio político e regulatório que desenha um futuro de dificuldades, mas também aponta caminhos e estratégias a serem seguidas.

A ausência de um processo de governança ambiental bem estabelecido em nível global é um dos sinais mais inquietantes do momento histórico que vivemos. Há um amplo debate na sociedade sobre o tema da sustentabilidade, mas os reflexos em ações práticas são pequenos. Poucas políticas públicas são de fato efetivas para a reorientação da sociedade no sentido de incorporar os limites que os ecossistemas apresentam, poucas são as mudanças efetivas no comportamento do consumidor e poucas são as mudanças efetivas no processo produtivo. Isto tudo acontece em meio à crescente ampliação de evidências científicas das consequências das alterações ambientais globais.

Dentro deste cenário, a UICN no Brasil pretende priorizar ações e mecanismos que fortaleçam a governança ambiental envolvendo atores governamentais, da sociedade civil, da iniciativa privada e academia. A UICN pode ser um fomentador de iniciativas que conduzam a uma melhor governança. O programa global da UICN 2013-2016 coloca justamente a governança como uma de suas ações mais estratégicas.

Nossas iniciativas no Brasil pretendem fortalecer coletivos de organizações em uma perspectiva de transição para a sustentabilidade. Este é a linha que dá sentido ao conjunto de atividades em implementação.

Estamos construindo e coordenando uma plataforma de várias organizações com o objetivo de dar escala a ações de restauração florestal em todos os biomas brasileiros. Após um extenso período de discussões e definições metodológicas esta iniciativa já lança suas primeiras ações.

Estamos ainda articulando um Painel Brasileiro de Biodiversidade – PainelBio para, em conjunto com organizações de todos os setores da sociedade, identificar e executar tarefas necessárias para atingir as Metas de Aichi no Brasil. Esta é uma importante contribuição para a implementação da Convenção da Diversidade Biológica – CDB.

Os produtos relacionados à produção de conhecimento, para subsidiar as ações de conservação e uso sustentável da biodiversidade, tem sido também objeto de nosso trabalho. Tanto a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas como a Lista Vermelha de Ecossistemas, tem recebido aporte metodológico e de recursos para sua viabilização no Brasil.

Temos trabalhado também no resgate de um tema pouco trabalhado até o momento em nossa região: a formação de capacidades no meio empresarial, especialmente em médias e pequenas empresas, para inclusão do tema biodiversidade em seus planos de negócios. Este projeto chama-se Leaders for Nature.

Áreas protegidas no contexto municipal é outra atividade que tem sido promovida, com ênfase na criação e gestão de unidades de conservação, preparando-as para uma efetiva contribuição à mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Este é um exemplo de como podemos contribuir regionalmente, na medida em que esta ação contempla 4 países: Brasil, Colômbia, Perú e Equador.

Todas estas iniciativas trazem uma contribuição forte à governança ambiental. Ao colocar atores de variados setores para trabalhar junto a identificação de problemas e suas soluções, estamos trabalhando com a maior das necessidades: a convergência de propósitos e recursos. Este é o papel crucial que a UICN pode desempenhar na América do Sul. Ou seja, ser um elemento catalisador, agregador, que supere a realidade limitada das ações isoladas de cada instituição individualmente e confira escala e densidade política a um processo de transição.

Temos claro que as dificuldades inerentes às estas iniciativas, tais como necessidades financeiras, estrutura de trabalho e de recursos humanos, ficam bastante amenizadas quando se trabalha coletivamente, criando sinergias com os pontos fortes e contribuições de cada organização.

O desafio da UICN para a conservação no Brasil é, portanto, construir governança como um meio de abrir caminhos para acelerar a transição para a sustentabilidade.

Luiz Fernando Krieger Merico
Coordenador Nacional – UICN/Brasil.

Este artículo forma parte de la revista electrónica de UICN-Sur, Conservación Ahora. Julio 2013.


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