Antas brasileiras ganham arca dourada

27 March 2008 | News story

Com os recursos do prêmio, Patrícia Medici estabelecerá uma nova base de pesquisas em Corumbá, Mato Grosso do Sul, para ampliar seus esforços de conservação da anta em outros biomas brasileiros.

Alguém liga se um animal considerado ‘estúpido’ for extinto?

Existe gente capaz de apostar na sobrevivência das antas a ponto de tirar dinheiro do bolso sem fazer piadinhas?

Pois por acreditar na possibilidade de vencer o preconceito e colocar a anta entre as espécies prioritárias para conservação a pesquisadora brasileira Patrícia Medici acaba de ganhar o prestigiado Prêmio Arca Dourada 2008 (Golden Ark Award), no valor de 50 mil euros. Seu excepcional trabalho com as antas no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste de São Paulo, junto ao Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), destacou-se entre 70 outros candidatos de 40 países avaliados por uma comissão científica internacional, por sua criatividade, liderança, capacidade de inovação e empreendorismo.

 

Com os recursos do prêmio, Patrícia Medici estabelecerá uma nova base de pesquisas em Corumbá, Mato Grosso do Sul, para ampliar seus esforços de conservação da anta em outros biomas brasileiros e, assim, criar uma perspectiva comparativa para a conservação das antas e de seus hábitats sob diferentes níveis de pressão e de impactos decorrentes de atividades humanas. A intenção, futuramente, é ter bases também na Amazônia e no Cerrado.

Quem é Patrícia Medici

 

Nascida em São Caetano do Sul, São Paulo, há 35 anos, Patrícia Medici é Engenheira Florestal pela Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’, Universidade de São Paulo (USP); Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e faz doutorado no Durrell Institute for Conservation and Ecology (DICE), pela Universidade de Kent, Inglaterra.  Desde 1996, ela coordena o Projeto Anta do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), uma pesquisa de longo prazo na região do Pontal do Paranapanema (SP), São Paulo, incluindo os 35 mil hectares do Parque Estadual Morro do Diabo e os fragmentos de Mata Atlântica de seu entorno. Nessas áreas, a equipe liderada pela pesquisadora descreveu e mapeou as principais rotas de dispersão natural da anta e agora usa as informações para construir corredores de biodiversidade, reconectando os fragmentos florestais. Além disso, a equipe avalia e monitora o estado genético e de saúde das populações de anta e aprimora técnicas de campo necessárias para obtenção de dados sobre os animais.  Tais estudos permitiram traçar um Plano de Ação Regional para a conservação da espécie.

 

Há 8 anos, Patrícia também preside o Grupo de Especialistas em Antas (Tapir Specialist Group - TSG) da Comissão de Sobrevivência de Espécies (Species Survival Commission - SSC) da União Mundial para a Conservação da Natureza (The International Union for the Conservation of Nature - IUCN), que reúne mais de 100 conservacionistas de 27 países, envolvidos com a conservação das 4 espécies de antas existentes: anta-brasileira (Tapirus terrestris), anta-andina (Tapirus pinchaque), anta-centroamericana (Tapirus bairdii) e anta-malaia (Tapirus indicus).  Mais informações no site www.tapir.org

Quem é a anta brasileira

 

A anta-brasileira (Tapirus terrestris) é o maior mamífero terrestre nativo da América do Sul.  Alcança 1 m de altura, 2 m de comprimento e até 250 kg.  Possui hábitos noturnos e vive tanto em florestas densas, como matas secundárias ou mesmo cerrados e vegetação aberta, desde que tenham rios, lagos ou lagoas. Além de nadar e mergulhar muito bem, a anta tem na água seu principal refúgio contra o excesso de calor (termorregulação) ou contra ameaças externas. Seus predadores naturais são a onça-pintada e a onça-parda, mas a maior pressão é a do homem: caça para consumo da carne e uso do couro; desmatamentos e fragmentação das matas (perda de hábitat).

 

A anta-brasileira tem um papel essencial na manutenção e renovação da diversidade biológica da vegetação, promovendo a dispersão de sementes. “Só no Brasil se associa a anta com estupidez, nos outros países não é assim”, comenta Patrícia. “O animal não tem nada de estúpido, é dócil e inteligente e, em cativeiro, é facilmente treinado”.

Sobre o prêmio Arca Dourada
(Golden Ark Award)

O prêmio Arca Dourada é concedido a pessoas que se destacam pela excelência de seus trabalhos em benefício da proteção e da conservação de espécies de fauna ou flora.  Os candidatos ao prêmio são nomeados por instituições de pesquisa e selecionados com base nos resultados de seus esforços.  Outro objetivo do prêmio é contribuir para a manutenção e a eventual ampliação dos trabalhos agraciados.

Patrícia Medici foi indicada pela Federação Holandesa de Zoológicos (Dutch Federation of Zoos - Dutch Foundation Zoos Help), co-financiadora de suas pesquisas desde 2002. Nesta edição foram nomeados 70 candidatos de 40 países, entre os quais 3 foram premiados.

Os outros dois conservacionistas agraciados com o Arca Dourada deste ano são o indiano Charudutt Mishra, de 36 anos, e o holandês Michiel Hötte, de 46 anos. Ambos trabalham com os carismáticos felinos.

Charudutt Mishra luta pela conservação de espécies nativas do Himalaia, com foco especial no leopardo-da-neve (Uncia uncia), um animal de cerca de 50 kg, que habita montanhas entre 2 mil e 6 mil metros de altitude. Mishra é doutor em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela Universidade Wageningen, da Holanda; co-fundador e diretor executivo da Nature Conservation Foundation (NCF) e diretor do Internationl Snow Leopard Trust na Índia.

Michiel Hötte é um dos pioneiros na conservação do leopardo-de-Amur (Panthera pardus orientalis), uma sub-espécie de grande porte (até 60 kg), originalmente distribuída entre Rússia, China e Coréia, mas hoje restrita a pequenas populações muito isoladas e sob forte pressão de caça. Hötte é Fundador e Diretor de Conservação da Tigris Foundation, com sede na Holanda e trabalhos de campo na Rússia, além de ser co-fundador e coordenador da Amur Leopard and Tiger Alliance (ALTA).

 

Mais informações sobre o Prêmio Arca Dourada podem ser obtidas no site www.goldenarkaward.org

 

Sobre o IPÊ

O IPÊ é considerado a terceira maior ONG ambiental do Brasil, possui título de OSCIP e tem sede em Nazaré Paulista (SP). O instituto começou com o Projeto Mico-Leão-Preto e hoje conta com mais de 90 profissionais trabalhando em cerca de 30 projetos espalhados pelo Brasil.

Nos locais onde atua, a organização adota o modelo IPÊ de Conservação, um modelo de ação integrado que inclui pesquisa de espécies ameaçadas, educação ambiental, restauração de hábitats, envolvimento comunitário e desenvolvimento sustentável, conservação da paisagem e envolvimento em políticas públicas. Um de seus objetivos é conservar a biodiversidade respeitando as tradições das comunidades do entorno dos locais a serem protegidos e onde são realizadas as pesquisas do IPÊ.

Mais informações sobre o IPÊ no site www.ipe.org.br